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Nomad planeja virar banco e ampliar serviços financeiros no Brasil

CEO da Nomad revela planos para lançar conta pós-paga e cartão de crédito no Brasil, além de avaliar impactos das novas regras do Banco Central sobre fintechs

A Nomad pretende ampliar sua atuação no mercado financeiro brasileiro com o desenvolvimento de produtos de pagamento e serviços bancários voltados ao uso cotidiano dos clientes. A estratégia representa uma nova etapa para a fintech, que construiu sua operação oferecendo soluções financeiras internacionais e agora considera a possibilidade de se transformar em banco.

Os planos foram apresentados pelo CEO e cofundador da empresa, Lucas Vargas, durante entrevista ao C-Level Entrevista, videocast da Folha de S.Paulo. Segundo o executivo, a companhia trabalha na construção de um ecossistema doméstico que permita ampliar o relacionamento com os usuários e oferecer serviços além das operações em moeda estrangeira.

A proposta envolve a criação de uma conta de pagamento pós-paga no Brasil, associada a cartão de crédito e outros instrumentos financeiros que possam oferecer remuneração aos clientes. O objetivo é desenvolver uma estrutura capaz de atender às necessidades bancárias recorrentes dos consumidores, aproximando a Nomad do modelo de instituição financeira utilizada no dia a dia.

Atualmente, as contas de pagamento no país podem funcionar nas modalidades pré-paga e pós-paga. Na primeira, as operações dependem de recursos previamente depositados pelo usuário. Na segunda, os pagamentos podem ser realizados sem a necessidade de aporte antecipado, como ocorre nas operações com cartão de crédito.

A ampliação do portfólio doméstico faz parte de uma estratégia de crescimento que também contempla o aumento da base de clientes e do volume de recursos mantidos no exterior.

A Nomad mantém a expectativa de alcançar 5 milhões de clientes até o encerramento de 2026. De acordo com Vargas, a empresa continua crescendo em um ritmo próximo de 1 milhão de novos usuários por ano e está dentro do planejamento necessário para atingir a meta estabelecida.

O executivo também destacou a expansão dos ativos dos clientes mantidos em moeda estrangeira. Segundo ele, o volume mais que dobrou ao longo deste ano, impulsionando a perspectiva de a fintech alcançar aproximadamente R$ 10 bilhões em ativos sob sua plataforma.

O desempenho ocorre mesmo após o aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) incidente sobre determinadas transações internacionais. O governo federal elevou para 3,5% a alíquota aplicada às operações com cartão no exterior, ampliando o custo para consumidores que utilizam esses instrumentos.

Na avaliação de Vargas, a mudança tributária representa um fator negativo para o setor, mas não foi suficiente para interromper a expansão do mercado de serviços financeiros internacionais destinados aos brasileiros.

O CEO argumenta que a utilização desses produtos ainda parte de uma base relativamente pequena, o que mantém espaço para o crescimento da demanda. Assim, embora a elevação do imposto tenha provocado impactos sobre o custo das operações, a empresa não identificou uma desaceleração relevante na adesão dos consumidores.

Vargas também considera que a tributação das operações internacionais poderá passar por novas mudanças nos próximos anos. Para ele, o avanço de tecnologias financeiras e de instrumentos baseados em ativos digitais tende a influenciar a estrutura do mercado e a discussão sobre a cobrança de impostos.

O executivo avalia que, no longo prazo, existe uma tendência de redução desses custos, embora reconheça que as decisões tributárias podem sofrer alterações e oscilações ao longo do tempo.

Além das questões relacionadas ao IOF, a Nomad acompanha o endurecimento das regras aplicáveis às instituições financeiras digitais. O debate ganhou força após investigações da Polícia Federal identificarem o uso de estruturas de fintechs por organizações criminosas em operações financeiras irregulares.

Entre essas investigações está a operação Carbono Oculto, que revelou mecanismos de utilização de instituições de pagamento em atividades relacionadas ao crime organizado. Os episódios ampliaram a atenção das autoridades para possíveis fragilidades nos mecanismos de controle e fiscalização do setor.

Vargas reconhece que a exposição dessas práticas prejudicou a imagem das empresas financeiras digitais. Entretanto, considera que o aumento das exigências regulatórias pelo Banco Central pode produzir efeitos negativos sobre a competitividade e a capacidade de inovação do mercado.

Segundo o executivo, medidas destinadas a fechar brechas regulatórias são acompanhadas de custos e exigências que podem dificultar o desenvolvimento de novos negócios. Ele afirma que a Nomad não é diretamente afetada pelas mudanças mencionadas, mas vê consequências para o setor como um todo.

“Isso é um freio para a inovação. Não nos afeta diretamente, mas para a indústria como um todo, como ciclo de inovação, entendo que é um grande freio”, declarou.

A posição evidencia um dos desafios enfrentados pelas fintechs brasileiras: conciliar o desenvolvimento de novos produtos e modelos de negócio com exigências de segurança, fiscalização e prevenção a crimes financeiros.

Para a Nomad, a próxima etapa de expansão deverá combinar a continuidade do crescimento em soluções internacionais com a entrada em segmentos de pagamentos domésticos. A eventual transformação em banco permanece como objetivo estratégico de longo prazo, condicionado à evolução dos produtos, da estrutura operacional e das exigências regulatórias aplicáveis.

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