A Portobello está negociando com bancos uma reestruturação de sua dívida de R$ 1,17 bilhão para ampliar os prazos de pagamento e reduzir o custo financeiro. A fabricante de revestimentos também admite uma possível capitalização pelos acionistas controladores caso o reperfilamento dos passivos não seja suficiente para equilibrar sua estrutura de capital.
O principal problema está no peso dos juros sobre os resultados. A dívida líquida equivale a 3,47 vezes o Ebitda e as despesas com juros chegaram a R$ 176,6 milhões apenas no primeiro semestre, valor equivalente a aproximadamente 14% da receita de vendas registrada no período.
O impacto aparece diretamente no balanço. A Portobello obteve lucro operacional, medido pelo Ebit, de R$ 80 milhões nos primeiros seis meses do ano, mas terminou o período com prejuízo líquido de R$ 104 milhões depois de contabilizar as despesas financeiras.
Segundo o vice-presidente de finanças, Ronei Gomes, a companhia considera que suas operações apresentam desempenho satisfatório, mas a atual estrutura de capital impede que essa melhora chegue ao resultado líquido. A negociação com os bancos busca, portanto, não apenas adiar vencimentos, mas também diminuir o custo da dívida.
O cronograma financeiro aumenta a pressão. Em junho, a companhia possuía R$ 213 milhões em caixa diante de R$ 101 milhões em vencimentos previstos para o segundo semestre. O volume cresce significativamente nos anos seguintes: são R$ 389 milhões com vencimento em 2027 e outros R$ 317 milhões em 2028, totalizando R$ 706 milhões nos dois anos.
A Portobello já começou a vender ativos para reforçar a liquidez. Em agosto, transferiu as operações da Pointer, localizadas na região metropolitana de Maceió, para o Grupo Almeida. O valor da transação não foi divulgado, mas a empresa informou que os recursos serão direcionados à redução da dívida, reforço do capital de giro e aumento da liquidez.
A Pointer representava aproximadamente 9% do faturamento consolidado, mas operava com margens inferiores às demais unidades. Com a venda, a companhia concentrou sua estrutura industrial nas unidades de Tijucas, em Santa Catarina, e Baxter, no Tennessee, nos Estados Unidos, além da rede de lojas próprias e franquias Portobello Shop.
Uma injeção de recursos pelos controladores também passou a integrar as alternativas consideradas. Questionado por investidores sobre a possibilidade, Gomes afirmou que “todas as opções estão na mesa” e reconheceu que uma capitalização poderá ocorrer durante o processo de reorganização financeira.
A necessidade de reduzir o endividamento coincide com um período de retração da indústria brasileira de revestimentos cerâmicos. As vendas do setor caíram cerca de 20% em quatro anos, passando de 1,032 bilhão de metros quadrados em 2021 para 822 milhões em 2025.
Segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Cerâmica (Anfacer), juros elevados no mercado doméstico e barreiras comerciais às exportações para os Estados Unidos têm pressionado a indústria. Esse ambiente limita a capacidade das empresas de compensar custos financeiros maiores apenas com expansão das vendas.
Fundada em 1979, em Tijucas, a Portobello atua na produção e comercialização de revestimentos, louças e metais sanitários, além de exportar para diferentes mercados. A companhia é listada na Bolsa e tem 57,8% das ações concentradas nas famílias Gomes, Gutierrez, Rebello e Brennand.









