O mercado financeiro brasileiro encerrou uma das semanas mais positivas dos últimos tempos com uma combinação rara de fatores favoráveis: bolsa em patamares recordes, dólar perdendo força e uma trégua momentânea nas tensões geopolíticas globais. O Ibovespa, principal índice da B3, fechou a última sexta-feira em 197 mil pontos e passou a flertar com a barreira dos 200 mil. Para Charles Mendlowicz, sócio da Ticker Wealth, o momento é de celebração — mas também de atenção redobrada.
“Há muito tempo nós não tínhamos uma semana tão positiva. Ibovespa subindo, dólar caindo. Arredondando para cima, os 200 mil pontos estão próximos”, afirma o economista. Na sua avaliação, o movimento é sustentado por uma combinação de fatores externos e internos, com destaque para a migração de capital global em direção a países emergentes.
O Brasil, nesse contexto, se beneficia de uma percepção de risco relativo mais favorável frente a outros mercados. “Para o investidor estrangeiro, dá para administrar a corrupção local, mas administrar a possibilidade de uma guerra nuclear ou civil é muito mais difícil”, pondera Mendlowicz. O cenário de ativos digitais também contribuiu para o humor positivo do mercado, com o Bitcoin recuperando patamares acima de US$ 70 mil.
A queda do dólar, que se aproximou da marca de R$ 5,00 no final da semana, é vista pelo economista como um alívio imediato — mas com ressalvas. Mendlowicz separa sua leitura em duas perspectivas: como investidor, o momento é de ganhos; como cidadão, a preocupação com a economia real persiste. O endividamento das famílias brasileiras atingiu em março o recorde de 80,4%, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio. “Se o juro seguir elevado por muito tempo, o Ibovespa em algum momento vai acabar sentindo. O juro alto por tempo demais vai destruindo a economia”, alerta o especialista.
Apesar das ressalvas, Mendlowicz não descarta novos recordes à frente. Questionado sobre a possibilidade de o Ibovespa alcançar 250 mil pontos em 2026, o economista é direto: “Podemos ter Ibovespa a 250 mil pontos ano que vem? Podemos. É difícil porque já tivemos um rali e precisaria de uma nova esticada, mas existe uma chance muito grande disso acontecer.”
Para ele, o fluxo estrangeiro segue sendo o principal motor dessa trajetória, enquanto o cenário fiscal — marcado pelo gasto público sem controle — permanece como o principal freio para um crescimento mais sustentável. A dinâmica das commodities também entra na equação: a queda no preço do petróleo, impulsionada por cessar-fogos, ajuda a segurar a inflação global e favorece a renda variável.
A recomendação de Mendlowicz para o momento de euforia é a diversificação e a cautela com o efeito manada. “Como investidor, o momento anima e o patrimônio multiplica, mas sem mudança política e fiscal a longo prazo, o cenário segue incerto”, conclui o economista.










