Quem investe em renda fixa por meio de títulos como o Tesouro IPCA+ ou debêntures já passou, em algum momento, pela mesma experiência desconcertante: abrir o aplicativo da corretora e encontrar o saldo menor do que o valor aplicado. O título aparece no vermelho. A reação natural é de estranhamento — afinal, renda fixa não deveria ser exatamente o oposto disso, um investimento onde o rendimento é previsível e o capital está seguro?
O que está por trás dessa oscilação tem nome: marcação a mercado. Entender esse mecanismo é fundamental para qualquer investidor que lida com títulos de renda fixa de médio e longo prazo, porque é ele que explica por que o saldo varia, quando essa variação representa risco real e quando é apenas um número temporário sem consequência prática para quem vai até o fim do prazo.
O preço de um título não é fixo
A primeira coisa a compreender é que títulos de renda fixa têm dois valores distintos ao mesmo tempo.
O primeiro é o valor na curva — ou seja, o valor que o título terá se o investidor o mantiver até o vencimento. Esse valor cresce de forma previsível, dia após dia, acumulando os juros contratados. Se você comprou um Tesouro IPCA+ com taxa de IPCA + 7% ao ano, sabe que, no vencimento, receberá exatamente a variação do IPCA mais 7% ao ano sobre o valor aplicado. Esse rendimento está garantido pelo Tesouro Nacional e não muda.
O segundo valor é o preço de mercado — o quanto esse título vale se for vendido hoje, antes do vencimento. Esse preço flutua diariamente conforme as condições do mercado mudam. É exatamente esse segundo valor que aparece no extrato da plataforma de investimentos. E é a diferença entre esses dois valores que causa a oscilação que confunde tantos investidores.
A marcação a mercado é justamente o processo de atualizar o preço dos títulos na carteira com base no valor que eles teriam se fossem vendidos no mercado naquele dia — e não com base no valor que eles terão no vencimento.
Por que o preço de mercado de um título oscila
Para entender a lógica da oscilação, é preciso partir de um princípio básico: quando as taxas de juros do mercado sobem, os títulos antigos ficam menos atrativos. E quando ficam menos atrativos, seu preço cai.
O raciocínio concreto é o seguinte. Suponha que você comprou um Tesouro IPCA+ pagando IPCA + 6% ao ano. Meses depois, o mercado passa a oferecer títulos semelhantes a IPCA + 8% ao ano. Um investidor que esteja analisando onde colocar seu dinheiro hoje terá à disposição dois títulos: o seu, com 6% ao ano, e um novo, com 8%. Para que o seu título seja igualmente atraente ao novo, seu preço de mercado precisa cair — porque comprado por um preço mais baixo, seu rendimento efetivo para quem adquirir agora se aproxima dos 8% do título novo. Esse ajuste acontece automaticamente e é refletido diariamente no seu extrato.
O inverso também é verdadeiro: quando as taxas de juros caem, os títulos antigos, que pagam taxas mais altas, ficam mais valiosos. Quem tem na carteira um Tesouro IPCA+ a 8% ao ano, num momento em que o mercado oferece apenas 5%, possui um ativo disputado — e seu preço de mercado sobe para refletir essa vantagem. É por isso que queda de juros pode gerar ganho de capital em títulos de renda fixa.
Em síntese: preço e taxa de juros se movem em direções opostas. Quando os juros sobem, o preço dos títulos cai. Quando os juros caem, o preço sobe.
Quando a marcação a mercado não representa perda real
Para a maioria dos investidores pessoa física que compra títulos do Tesouro Direto ou debêntures com o objetivo de mantê-los até o vencimento, a marcação a mercado é um número no extrato sem consequência prática.
Imagine que você comprou um título hoje a IPCA + 7% ao ano, com vencimento em 2035. No próximo ano, as taxas sobem para IPCA + 9%, e o preço de mercado do seu título cai — o extrato mostra rentabilidade negativa. Isso parece uma perda, mas não é. Se você não vender o título, continuará recebendo exatamente o que foi contratado na compra: IPCA + 7% ao ano, até o vencimento em 2035. A oscilação no meio do caminho é irrelevante para quem não sai antes do fim.
O Tesouro Nacional garante a recompra dos seus títulos a qualquer momento, mas a qualquer momento significa pelo preço de mercado do dia — que pode ser desfavorável ao investidor. A proteção contra a marcação a mercado, portanto, está no tempo: quem tem horizonte longo e não precisa do dinheiro antes do vencimento não tem o que temer.
Títulos com vencimentos mais longos oscilam mais do que títulos com vencimentos curtos, por uma razão matemática: em prazos maiores, uma pequena variação na taxa de desconto tem impacto maior no preço presente do ativo. Um título com vencimento em 30 anos reage muito mais intensamente a uma mudança de 1% nas taxas do que um título com vencimento em 2 anos. Isso significa que quem investe em prazos muito longos precisa estar especialmente preparado para ver oscilações expressivas no extrato — sem entrar em pânico.
Quando a marcação a mercado representa risco real
A marcação a mercado se torna um risco concreto apenas em uma situação: quando o investidor precisa resgatar o dinheiro antes do vencimento, num momento em que o preço de mercado está abaixo do valor de compra.
Isso pode acontecer por razões planejadas — o objetivo de investimento mudou, surgiu uma oportunidade melhor — ou por imprevistos: uma emergência financeira, uma necessidade não antecipada. Quem se vê obrigado a vender um título num momento em que as taxas estão altas, e portanto o preço de mercado está baixo, realiza uma perda que antes era apenas contábil.
Por isso, a recomendação mais frequente de especialistas é óbvia mas frequentemente ignorada: o prazo do investimento precisa estar alinhado ao objetivo financeiro do investidor. Dinheiro que pode ser necessário no curto prazo não deveria estar em títulos com vencimento longo. Para a reserva de emergência ou para objetivos de até dois anos, o Tesouro Selic — que não sofre marcação a mercado relevante, porque acompanha a taxa básica de juros diariamente — é a alternativa mais adequada.
A marcação como oportunidade: o ganho de capital
Se a marcação a mercado pode ser um risco para quem precisa sair antes da hora, ela também pode ser uma fonte de ganho para quem sabe usá-la.
Quando um investidor compra um título com taxa alta — digamos, IPCA + 8% ao ano — e as taxas de mercado caem para IPCA + 5% depois disso, o preço de mercado do seu título sobe significativamente. Se ele vender antes do vencimento, realizará um ganho de capital além do rendimento acumulado pelo prazo que ficou com o papel.
Esse efeito é chamado pelos profissionais de mercado de “fechamento de curva”, e é uma das estratégias mais utilizadas por gestores de fundos de renda fixa: comprar títulos quando as taxas estão altas e vender quando as taxas recuam, capturando a valorização de preço. Para o investidor pessoa física, é uma possibilidade real, mas exige timing e disposição para monitorar o mercado — características que nem todos têm ou querem ter.
Vale notar que o ganho de capital em títulos de renda fixa tem incidência de imposto de renda pela tabela regressiva, assim como os juros. A alíquota depende do tempo total de permanência no título.
Quais títulos sofrem mais com a marcação a mercado
Nem todos os títulos de renda fixa são igualmente afetados. A sensibilidade à marcação a mercado depende de dois fatores principais: o prazo e o tipo de indexação.
O Tesouro Selic é o menos afetado de todos. Como sua rentabilidade segue a taxa básica de juros diariamente, seu preço de mercado se ajusta de forma suave e praticamente não oscila. É o título de renda fixa com menor risco de marcação a mercado, o que o torna ideal para reserva de emergência.
O Tesouro Prefixado é o mais sensível às variações de taxa, porque seu rendimento foi travado em um número fixo no momento da compra. Se as expectativas de juros futuros mudarem — para cima ou para baixo — o preço do título muda bastante. Títulos prefixados de prazo longo podem ter oscilações expressivas.
O Tesouro IPCA+ fica num ponto intermediário, com sensibilidade que aumenta conforme o prazo. Um Tesouro IPCA+ com vencimento em 2026 oscila pouco; um com vencimento em 2045 pode ter variações diárias expressivas. A proteção contra a inflação está garantida para quem vai até o vencimento, mas o caminho pode ter muita turbulência.
As debêntures — especialmente as incentivadas de infraestrutura, com prazos médios superiores a dez anos — estão entre os títulos mais sensíveis à marcação a mercado. A isso se soma o risco de crédito do emissor, que pode adicionar outra dimensão de oscilação ao preço no mercado secundário.
Os CDBs com liquidez diária praticamente não sofrem marcação a mercado para o investidor de varejo, pois o banco garante o resgate pelo valor contratado a qualquer momento. Já CDBs sem liquidez, negociados no mercado secundário, podem ter preços que oscilam como qualquer outro título de renda fixa.
O Tesouro Reserva e o caminho sem oscilação
Em 2026, o Tesouro Nacional lançou o Tesouro Reserva, um título indexado à Selic com vencimento de três anos e sem marcação a mercado. O investidor pode resgatar a qualquer momento pelo valor acumulado até ali, sem risco de ver o saldo no vermelho por efeito de variação de taxa. É uma resposta direta à confusão que a marcação a mercado gera entre investidores menos experientes, e serve como porta de entrada para quem quer ter a segurança do Tesouro sem a turbulência do extrato.
Para quem já compreende o mecanismo, porém, a marcação a mercado não é um problema a ser evitado — é uma característica a ser gerenciada. Saber que o saldo no extrato reflete o preço de hoje, e não o valor que o título terá no vencimento, é o que separa a decisão racional do susto desnecessário.










