A Oncoclínicas avançou nas negociações para reestruturar uma dívida de R$ 5,1 bilhões e já teria conseguido a adesão de aproximadamente 70% dos credores ao seu plano de recuperação extrajudicial. O percentual supera o mínimo necessário para solicitar a homologação judicial da proposta e representa uma etapa importante na tentativa de reorganizar as finanças da rede de tratamento oncológico, que enfrenta dificuldades de caixa, problemas operacionais e uma disputa entre acionistas.
As informações foram apuradas pelo Valor Econômico, segundo o qual a companhia tem até esta sexta-feira (9) para apresentar o resultado das negociações. Novos acordos ainda podem ser concluídos antes do encerramento do prazo. Para obter a homologação, é necessária a concordância de credores que representem pelo menos 50% do valor dos créditos sujeitos ao plano, condição que já teria sido atendida com a participação dos detentores de certificados de recebíveis imobiliários (CRIs) e da distribuidora de medicamentos Oncoprod.
A proposta em negociação prioriza o alongamento dos vencimentos, com abatimentos menores sobre os valores devidos. Para os principais credores financeiros, os pagamentos poderão ser distribuídos ao longo de aproximadamente 13 anos, com períodos de carência entre um e dois anos. As condições não serão necessariamente iguais para todos, uma vez que os termos estão sendo negociados conforme as características de cada credor.
A Oncoclínicas foi procurada pelo Valor para comentar o andamento das tratativas, mas não respondeu até a publicação das informações.
Uma das negociações mais relevantes envolve a Oncoprod, distribuidora que possui cerca de R$ 1,2 bilhão a receber da companhia. Por ser considerada essencial para o funcionamento das clínicas, a fornecedora conseguiu condições diferentes das previstas para os credores financeiros.
Pelo acordo, a Oncoprod não sofrerá deságio sobre seus créditos e começará a receber os pagamentos em 2027. A negociação também contempla a retomada do fornecimento de medicamentos com prazo de pagamento de 90 dias, em operações que poderão alcançar R$ 600 milhões.
A mudança nas condições comerciais é especialmente importante para a continuidade dos atendimentos. Durante o agravamento da crise financeira, a distribuidora havia passado a exigir pagamento antecipado para liberar novos pedidos, restringindo a capacidade da Oncoclínicas de adquirir medicamentos.
Entre março e abril, a insuficiência de recursos para a compra de remédios provocou atrasos no tratamento de aproximadamente 6 mil pacientes. O episódio agravou a crise operacional e comprometeu a reputação da rede. Na ocasião, a empresa obteve um financiamento de R$ 150 milhões com a gestora Lumina para recompor o abastecimento de medicamentos.
A renegociação com a Oncoprod busca, portanto, solucionar duas necessidades simultâneas: reorganizar uma parcela expressiva do endividamento e restabelecer condições de fornecimento que permitam à companhia manter os tratamentos sem depender exclusivamente de pagamentos antecipados.
Além das dificuldades financeiras, a Oncoclínicas enfrenta um conflito societário relacionado à realização de uma oferta pública de aquisição de ações (OPA), cujo valor pode chegar a R$ 14 bilhões.
Acionistas minoritários liderados pela Latache defendem a efetivação da oferta, aprovada no mês passado pelo Colegiado da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A operação, entretanto, é contestada pela Centaurus, que seria responsável pela aquisição das ações.
A Centaurus instaurou um procedimento arbitral sob o argumento de que o estatuto da Oncoclínicas determina que disputas societárias sejam resolvidas na Câmara de Arbitragem da B3. O impasse acrescenta uma frente de incerteza à reorganização financeira da companhia, já que envolve interesses e obrigações de seus acionistas.
A eventual homologação do plano de recuperação extrajudicial também poderá influenciar a disposição de investidores em participar de uma reestruturação mais ampla do grupo.
Uma das propostas mais recentes foi apresentada em julho pela gestora IG4, que manifestou interesse em liderar a reorganização da Oncoclínicas. A estrutura sugerida incluía um direito de usufruto sobre ações da companhia, condicionado a um entendimento com os acionistas, e a subscrição de R$ 500 milhões em debêntures conversíveis em ações.
As conversas relacionadas à proposta da IG4 estão paralisadas, mas a evolução das negociações com os credores poderá alterar as condições para uma eventual retomada do interesse de investidores.
A estrutura acionária da Oncoclínicas também passou por mudanças após o aumento de capital realizado no ano passado. A operação atraiu investidores que haviam adquirido debêntures conversíveis em ações negociadas no mercado com deságio expressivo.
Entre os participantes desse movimento estão o banco Original e os advogados Arnoldo e Alexandre Wald, por meio do fundo Lumen. A entrada desses investidores ampliou a diversidade de interesses presentes na base acionária da empresa.
O Goldman Sachs, que chegou a deter 93% da Oncoclínicas antes de sua abertura de capital, em 2021, seguiu trajetória oposta. O banco reduziu gradualmente sua exposição à companhia e desmontou a posição que mantinha por meio de instrumentos derivativos.
Com a adesão já obtida ao plano extrajudicial, a Oncoclínicas se aproxima de uma etapa decisiva da renegociação de suas obrigações financeiras. A conclusão do processo, entretanto, ainda depende da formalização dos acordos e da homologação judicial. Paralelamente, a companhia precisa estabilizar o fornecimento de medicamentos, preservar a continuidade dos tratamentos e lidar com os conflitos societários que permanecem em aberto.










