A XP Investimentos revisou seu cenário macroeconômico para os próximos anos e passou a enxergar um ambiente mais desafiador para a política monetária brasileira. Em relatório divulgado nesta semana, a corretora elevou sua projeção para a taxa Selic ao final de 2026, aumentou as estimativas de inflação e reforçou os alertas sobre a trajetória da dívida pública, embora mantenha uma visão relativamente positiva para o crescimento econômico e para as contas externas do país.
O ponto central da revisão está na percepção de que o cenário inflacionário global se deteriorou nos últimos meses. Segundo a equipe liderada pelo economista-chefe Caio Megale, os bancos centrais enfrentam uma situação cada vez mais complexa, pressionados simultaneamente por choques de oferta, conflitos geopolíticos e economias que seguem apresentando resiliência maior do que a esperada.
Na avaliação da XP, os exportadores de commodities, como o Brasil, encontram-se em posição relativamente melhor do que outras economias, mas continuam expostos aos efeitos da inflação global, especialmente em um momento marcado pela escalada das tensões no Oriente Médio e pela persistência de preços elevados de alimentos e energia.
Diante desse contexto, a corretora elevou sua projeção para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2026, que passou de 5,3% para 5,5%. Para 2027, a expectativa também foi revisada para cima, saindo de 4,0% para 4,2%. Ambas as projeções permanecem acima do centro da meta perseguida pelo Banco Central.
Segundo os economistas da instituição, a alta do petróleo tem impacto que vai além dos combustíveis. Mesmo que medidas temporárias, como subsídios e reduções tributárias, consigam amenizar parte da pressão nos postos, os efeitos indiretos do encarecimento da energia tendem a se espalhar pela economia por meio do aumento dos custos de transporte, produção e serviços.
A XP avalia que esse cenário reduz significativamente o espaço para novos cortes de juros. Por isso, elevou sua estimativa para a Selic terminal de 2026 de 13,75% para 14,00% ao ano. O novo cenário contempla apenas mais duas reduções de 0,25 ponto percentual antes de uma interrupção do ciclo para reavaliação do ambiente econômico.
Para a corretora, os dois principais obstáculos à continuidade dos cortes são os choques inflacionários globais e a política doméstica de estímulo à atividade. Segundo o relatório, o conjunto de medidas de crédito e incentivos implementado pelo governo acaba reduzindo parte da eficácia da política monetária restritiva conduzida pelo Banco Central.
Mesmo diante desse ambiente mais desafiador para os juros, a XP manteve sua projeção de crescimento de 2,0% para o Produto Interno Bruto (PIB) em 2026. A instituição destaca que o mercado de trabalho continua aquecido e que os programas de estímulo vêm sustentando a demanda interna.
Já para 2027, a expectativa é menos favorável. A corretora projeta expansão de apenas 1,2%, refletindo o impacto acumulado dos juros elevados e a perspectiva de redução dos estímulos fiscais observados nos últimos anos.
O cenário fiscal também ocupa espaço importante na análise da XP. Apesar de reconhecer uma melhora recente na arrecadação federal, a casa alerta que os gastos associados às novas políticas de estímulo continuam pressionando a trajetória da dívida pública.
O economista Tiago Sbardelotto avalia que o desempenho mais forte das receitas públicas deve ser suficiente para garantir o cumprimento da meta fiscal em 2026. Com isso, a XP revisou sua estimativa para o déficit primário de R$ 55,3 bilhões para R$ 48,3 bilhões.
Quando excluídas as despesas que ficaram fora da meta fiscal, a corretora projeta inclusive um superávit primário de aproximadamente R$ 11 bilhões no próximo ano.
Apesar dessa melhora pontual, Sbardelotto alerta que o problema está no crescimento das despesas financeiras associadas às políticas de estímulo. Segundo ele, os programas de crédito implementados pelo governo somaram cerca de R$ 86,6 bilhões nos últimos 12 meses, o equivalente a 0,7% do PIB.
Na prática, isso contribui para aumentar a dívida bruta do governo, mesmo que o impacto sobre a dívida líquida seja mais gradual.
Por essa razão, a XP elevou suas projeções para a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG). A expectativa passou de 83,2% para 83,3% do PIB em 2026 e de 87,7% para 88,1% do PIB em 2027.
Segundo a corretora, uma eventual retomada mais consistente dos cortes de juros poderá depender de mudanças na condução da política fiscal. O relatório afirma que o Banco Central pode voltar a flexibilizar a política monetária em 2027 caso o ambiente fiscal se torne menos expansionista.
No mercado cambial, a XP manteve sua projeção de dólar a R$ 5,00 ao final de 2026. Embora reconheça que o período eleitoral tende a aumentar a volatilidade dos ativos brasileiros, a corretora avalia que o real continua encontrando suporte em fundamentos externos favoráveis.
Entre os fatores positivos estão o desempenho das exportações de commodities, os termos de troca ainda favoráveis e a atratividade do diferencial de juros brasileiro em comparação com outras economias.
Essa visão também se reflete nas contas externas. A XP manteve a estimativa de déficit em conta corrente equivalente a 2,1% do PIB em 2026, após um resultado mais pressionado em 2025.
Ao mesmo tempo, a corretora elevou suas projeções para o Investimento Direto no País (IDP). A expectativa passou de US$ 75 bilhões para US$ 85 bilhões em 2026 e de US$ 79 bilhões para US$ 80 bilhões em 2027.
Segundo a economista Luíza Pinese, esse fluxo de investimentos possui caráter estrutural e está ligado ao crescente interesse internacional pelos recursos naturais brasileiros. A especialista destaca que o país vem ganhando relevância como fornecedor de minerais estratégicos e produtor de energia renovável, fatores que continuam atraindo capital estrangeiro mesmo em um ambiente global mais incerto.
No balanço geral, o relatório da XP aponta para uma economia que continua crescendo, mas sob pressão de uma inflação mais persistente, juros elevados por mais tempo e uma dívida pública em trajetória ascendente. Para a corretora, a combinação entre choques externos, estímulos domésticos e incertezas fiscais torna o trabalho do Banco Central mais complexo e reduz significativamente o espaço para uma queda mais acelerada da Selic nos próximos trimestres.










