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Bancos revisam ações após eleições e apontam setores favorecidos

Petrobras, Cyrela, EZTec e utilities entram no radar após primeiro turno, enquanto bancos avaliam impactos de juros menores e valorização do real

A mudança de cenário provocada pelo primeiro turno das eleições levou grandes bancos a recalibrar suas estratégias para a Bolsa brasileira. Citi, Jefferies, J.P. Morgan, BTG Pactual e Bradesco BBI passaram a avaliar quais empresas poderiam apresentar maior sensibilidade a uma eventual redução do risco fiscal, queda dos juros e valorização do real.

As análises partem do resultado que colocou Flávio Bolsonaro (PL) à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno. Parte das instituições passou a trabalhar com cenários em que uma eventual mudança na condução econômica poderia reduzir os prêmios de risco. Essas projeções estão condicionadas ao resultado do segundo turno e às políticas efetivamente adotadas pelo próximo governo.

Nesse ambiente, empresas com maior exposição à economia brasileira e companhias com dívidas sensíveis à Selic aparecem entre as que poderiam se beneficiar mais de uma queda das taxas. A contrapartida seria um ambiente relativamente menos favorável para algumas exportadoras, especialmente aquelas que recebem em dólares e possuem parcela relevante dos custos em reais.

Petrobras aparece entre os principais nomes analisados no setor de petróleo. Citi e Bradesco BBI avaliam que uma eventual mudança na política da companhia poderia envolver maior alinhamento dos combustíveis às referências internacionais, revisão de despesas e investimentos e retomada de vendas de ativos considerados maduros ou menos estratégicos.

Esse cenário também poderia produzir efeitos sobre produtoras independentes. Prio, Brava Energia e PetroReconcavo poderiam encontrar novas oportunidades de aquisição caso a Petrobras retomasse um programa mais amplo de desinvestimentos. Trata-se, porém, de uma hipótese considerada pelos analistas, sem definição sobre eventuais ativos ou operações.

Cosan e Vibra Energia aparecem em outra frente da análise. Por apresentarem níveis relevantes de alavancagem, as companhias poderiam ser beneficiadas por uma queda do custo do dinheiro, que reduziria despesas financeiras e facilitaria o processo de desalavancagem.

O Bradesco BBI, entretanto, adotou uma postura tática mais cautelosa para grandes distribuidoras de combustíveis, incluindo Vibra e Ultrapar. A avaliação é de que o perfil mais defensivo dessas empresas poderia resultar em desempenho relativo inferior ao de setores mais cíclicos caso a Bolsa mantenha um movimento de maior apetite ao risco.

Na construção civil, o J.P. Morgan promoveu uma mudança relevante em suas preferências. Cyrela e EZTec tiveram recomendação elevada de neutra para compra, enquanto Cury, Direcional e Tenda passaram de compra para neutra. O banco considera que incorporadoras voltadas às faixas de renda média e alta apresentam maior sensibilidade à redução das taxas de juros e do custo de capital.

As empresas concentradas na baixa renda, por outro lado, enfrentariam fatores adicionais no curto prazo. Além da rotação dos investidores para papéis mais sensíveis à queda dos juros, o relatório aponta o aperto recente nas condições de financiamento habitacional da Caixa como um elemento a ser acompanhado.

O efeito da curva de juros também é relevante para infraestrutura e serviços públicos. O Bradesco BBI calcula que uma queda de 0,50 ponto percentual nos juros reais de longo prazo poderia elevar entre 5% e 6% os preços-alvo estimados para empresas como Sabesp, Equatorial, Energisa, Copasa e Auren.

Se o cenário fiscal seguir na direção contrária e os juros longos voltarem a subir, o banco aponta ISA Energia, Copel e Axia Energia como alternativas relativamente mais defensivas, principalmente pela duração dos investimentos e pela geração de proventos.

A valorização do real produz uma dinâmica diferente para empresas exportadoras. Segundo o Citi, companhias como Vale, CSN Mineração e Suzano podem sofrer pressão sobre margens porque recebem parcela significativa de suas receitas em dólares enquanto parte dos custos permanece denominada em reais.

A Vale, contudo, mantém características específicas. Além da elevada liquidez de suas ações, que facilita a entrada de investidores estrangeiros no mercado brasileiro, o J.P. Morgan destaca a expansão da mineradora em cobre. Pelos cálculos do banco, esse crescimento poderia adicionar US$ 13,5 bilhões ao valor da companhia.

Na siderurgia, Usiminas e CSN aparecem como empresas mais sensíveis a eventuais mudanças na política comercial brasileira e nas medidas de proteção contra importações. A Gerdau possui uma dinâmica diferente por manter exposição relevante aos Estados Unidos, reduzindo parcialmente sua dependência do mercado doméstico.

Entre as empresas de papel e celulose, o Citi considera Klabin e Irani relativamente menos expostas à valorização do real do que Suzano. A maior presença no mercado doméstico e uma parcela relevante de custos e dívidas em moeda brasileira ajudam a reduzir essa sensibilidade cambial.

As mudanças mostram que a leitura dos bancos vai além da direção geral do Ibovespa. A combinação entre política fiscal, juros e câmbio pode produzir efeitos bastante diferentes entre setores e empresas. As recomendações representam cenários traçados pelas instituições e podem ser revistas conforme o resultado do segundo turno e as propostas econômicas ganhem maior definição.

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