BolsaDestaqueEconomiaNotícias

Mercado exagera ao apostar em ajuste fiscal de Flávio, diz economista

Ex-diretor do BC vê otimismo antecipado dos investidores e afirma que melhora de juros e câmbio dependerá da entrega efetiva de um ajuste fiscal

A forte valorização dos ativos brasileiros depois do primeiro turno das eleições embute uma expectativa que ainda precisará ser confirmada: a de que uma eventual mudança de governo será acompanhada por um ajuste relevante das contas públicas. A avaliação é do economista Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central, que considera elevado o grau de confiança atribuído pelo mercado a esse cenário.

Em entrevista ao Estadão, Schwartsman afirmou que os investidores estão “muito comprados” na possibilidade de Flávio Bolsonaro (PL) promover um ajuste fiscal caso seja eleito. O economista, porém, diz manter ceticismo porque as propostas apresentadas até agora não detalham como ocorreria uma redução estrutural das despesas.

A discussão ganhou força depois de o Ibovespa subir 7,7% na segunda-feira (5), superando 200 mil pontos pela primeira vez, enquanto o dólar e as taxas de juros futuros recuaram. O movimento ocorreu após Flávio terminar o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O segundo turno será realizado em 25 de outubro.

Na avaliação de Schwartsman, declarações sobre aumento da eficiência do Estado são insuficientes para dimensionar um eventual ajuste. Para produzir uma mudança estrutural na trajetória das contas públicas, ele considera que o debate teria de alcançar despesas relevantes e de difícil alteração política.

Entre os pontos citados pelo economista estão Previdência, política de valorização do salário mínimo, pisos constitucionais de saúde e educação e desenho de programas sociais. Segundo ele, mudanças nessas áreas envolveriam decisões politicamente difíceis e exigiriam propostas mais detalhadas do próximo governo.

Schwartsman também pondera que é natural que candidatos evitem apresentar medidas potencialmente impopulares durante a campanha. Para ele, entretanto, essa ausência de detalhamento aumenta a incerteza sobre quanto do ajuste atualmente considerado pelos mercados poderia efetivamente ser executado.

O economista compara o momento à reação observada no início do atual governo. Segundo sua análise, Lula também recebeu inicialmente um período de maior confiança dos investidores com a apresentação do arcabouço fiscal, acompanhado por queda dos juros e valorização do real. Posteriormente, a percepção do mercado mudou diante das dúvidas sobre a capacidade de cumprimento das metas fiscais.

A mesma dinâmica poderia ocorrer em um eventual governo Flávio, na avaliação de Schwartsman. Uma expectativa inicial de maior disciplina fiscal pode contribuir para juros menores, valorização do real e melhores condições para o Banco Central reduzir a Selic. A continuidade desse movimento, contudo, dependeria da apresentação e execução das medidas prometidas.

Para o ex-diretor do BC, a definição da equipe econômica também será determinante. Embora reconheça a presença de economistas que considera preparados nas discussões sobre um eventual governo do candidato do PL, Schwartsman ressalta que a existência de uma equipe técnica não significa que suas propostas serão necessariamente incorporadas pelo presidente.

Ele também relativiza a leitura de que o avanço de partidos de direita no Congresso garantiria maior facilidade para um ajuste fiscal. Segundo Schwartsman, não existe uma relação automática entre posicionamento ideológico e apoio à redução de despesas públicas.

Na avaliação do economista, a iniciativa do Executivo será mais importante. O Congresso pode aprovar mudanças encaminhadas pelo governo, mas a construção de uma agenda fiscal dependerá do conteúdo das propostas, da articulação política e da disposição do presidente para sustentar medidas potencialmente impopulares.

A análise de Schwartsman funciona, portanto, como contraponto ao otimismo que dominou os mercados após o primeiro turno. Para ele, parte dos preços dos ativos já incorpora expectativas de mudança na política fiscal. Se essas expectativas não forem acompanhadas por medidas concretas, a reprecificação observada em Bolsa, juros e câmbio poderá ser revista pelos investidores.

Postagens relacionadas

1 of 726