O GPA, controlador das redes Pão de Açúcar e Extra, conseguiu aprovar seu plano de recuperação extrajudicial após quase dois meses de negociações intensas com bancos e demais credores. A proposta recebeu adesão de 57,49% dos detentores da dívida e prevê uma reestruturação ampla do passivo da companhia, incluindo redução superior a 50% do endividamento, alongamento dos vencimentos e emissão de novas debêntures.
O plano envolve dívidas de R$ 4,568 bilhões e foi estruturado para aliviar a pressão financeira que vinha se concentrando nos próximos meses. Segundo a companhia, cerca de R$ 1,7 bilhão venceria entre maio e junho deste ano, enquanto outros R$ 2,3 bilhões estavam programados para 2026. Com a renegociação, o prazo médio da dívida saltará de 2,1 anos para 6,4 anos, reduzindo drasticamente a necessidade de desembolsos de curto prazo.
A operação será dividida em diferentes etapas. O GPA fará inicialmente uma emissão de debêntures de R$ 1,5 bilhão. Em seguida, emitirá outros R$ 1,1 bilhão em títulos que poderão ser convertidos em ações entre 2027 e 2031. Já os R$ 2 bilhões restantes da dívida sofrerão deságio de 70%, reduzindo esse montante para R$ 600 milhões, que serão transformados em novos títulos com vencimento em 2036.
Segundo a varejista, aproximadamente 70% da dívida renegociada começará a ser paga apenas a partir de 2031, o que deve gerar um alívio relevante no fluxo de caixa. A empresa estima que o plano reduzirá em mais de R$ 4 bilhões os desembolsos previstos para os próximos dois anos.
Além da renegociação principal, o acordo prevê ainda um financiamento adicional de até R$ 200 milhões, que poderá ser concedido pelos próprios credores interessados em aportar novos recursos na operação da companhia.
O CEO do GPA, Alexandre Santoro, afirmou que o objetivo central da recuperação é reorganizar a estrutura financeira da empresa sem comprometer as operações. Segundo ele, o grupo enfrentava uma estrutura de dívida incompatível com a geração de caixa atual da varejista.
Santoro disse ainda que a prioridade da companhia agora será melhorar rentabilidade e desempenho operacional das lojas já existentes, descartando expansão da rede neste momento. O GPA possui atualmente 728 unidades espalhadas pelo país.
Entre os principais credores que aderiram ao plano estão Itaú Unibanco, Rabobank, BTG Pactual e HSBC. O Rabobank concentra a maior exposição individual, com aproximadamente R$ 917 milhões em contratos em euro. O Itaú aparece com cerca de R$ 707,7 milhões em debêntures, enquanto BTG e HSBC possuem exposições de R$ 225,7 milhões e R$ 206,3 milhões, respectivamente.
O plano contempla créditos quirografários — dívidas sem garantia — e não inclui obrigações correntes com fornecedores, prestadores de serviços e locadores. Como se trata de uma recuperação extrajudicial, o acordo é negociado diretamente entre a empresa e os credores, sem necessidade de aprovação judicial para sua implementação.
A crise financeira do GPA se agravou nos últimos anos em meio ao ambiente de juros elevados, desaceleração do consumo e aumento do endividamento das famílias brasileiras, fatores que pressionaram o desempenho do varejo alimentar e reduziram margens da companhia.
Desde 2021, o grupo vem promovendo uma ampla reestruturação, baseada principalmente na venda de ativos considerados não estratégicos. Nesse período, vendeu 71 pontos comerciais do Extra para o Assaí, se desfez da participação no Grupo Éxito, na Colômbia, além de alienar imóveis e postos de combustíveis. As operações renderam mais de R$ 1,5 bilhão ao caixa da empresa.
Mesmo assim, os desinvestimentos não foram suficientes para estabilizar a estrutura financeira da varejista, que continuou pressionada pelo elevado custo da dívida e pela deterioração do cenário macroeconômico. Analistas avaliam que a aprovação do plano representa um passo importante para evitar um agravamento da crise financeira do grupo e dar mais previsibilidade à operação nos próximos anos.









