O mercado brasileiro de crédito privado entrou em 2026 pressionado por uma sequência de eventos que elevaram a percepção de risco dos investidores, mas a recente correção nos preços dos títulos começa a abrir uma nova janela de oportunidades para gestoras e fundos especializados. A avaliação é de Guilherme Mattioli, sócio e gestor da BTG Pactual Asset Management, que vê o atual momento como mais favorável para ampliar posições em ativos de renda fixa privada.
Durante participação no ETF Day, evento promovido pelo BTG Pactual para assessores de investimentos, Mattioli afirmou que a gestora não enxerga um problema estrutural no mercado de crédito brasileiro. Segundo ele, apesar das turbulências recentes envolvendo empresas em recuperação judicial e episódios ligados a instituições financeiras, como o Banco Master, não há sinais de deterioração generalizada da qualidade das companhias emissoras ou de uma onda ampla de inadimplência.
Na avaliação do gestor, o ambiente atual é diferente de períodos históricos de crise sistêmica no crédito. O movimento recente teria sido provocado principalmente por uma forte compressão dos spreads ao longo de 2025, cenário impulsionado pela busca intensa de investidores por ativos de renda fixa em meio à Selic elevada.
Com os juros em patamar elevado, houve forte migração de recursos para produtos de crédito privado, incluindo debêntures, Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs), Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) e títulos bancários como CDBs. Esse fluxo acabou reduzindo os prêmios pagos pelos emissores, comprimindo spreads e diminuindo a atratividade de parte das operações frente aos riscos assumidos.
Segundo Mattioli, muitos papéis passaram a negociar com remuneração considerada insuficiente diante da qualidade de crédito de determinados emissores. A situação mudou após o aumento da aversão ao risco provocado por episódios recentes de estresse no mercado.
A sequência de recuperações judiciais e extrajudiciais de empresas, somada aos desdobramentos envolvendo o Banco Master, desencadeou uma onda de resgates em fundos de crédito privado e ampliou a pressão de venda sobre diversos títulos. O movimento provocou uma reabertura dos spreads e uma queda nos preços de mercado dos ativos.
Para a BTG Asset, esse ajuste trouxe de volta um equilíbrio mais adequado entre risco e retorno. “Antes estávamos com mais caixa, mas agora abriu um espaço para um movimento mais forte de alocação”, afirmou Mattioli durante o evento.
Na prática, a reabertura dos spreads significa que investidores voltaram a exigir taxas maiores para financiar empresas e instituições financeiras, o que elevou o retorno potencial de diversos títulos privados. Na visão da gestora, isso cria um ambiente mais saudável para novas aplicações, especialmente em operações consideradas de melhor qualidade de crédito.
O mercado acompanha com atenção os próximos movimentos da renda fixa privada em meio ao cenário macroeconômico ainda desafiador, marcado por juros elevados, desaceleração econômica e maior seletividade dos investidores. Mesmo assim, grandes gestoras avaliam que o estresse recente ajudou a corrigir distorções que vinham se acumulando no setor desde o ano passado.










