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IG4 prepara recuperação extrajudicial da Braskem para reestruturar dívida

Nova controladora da Braskem acelera negociações com credores e prepara plano para enfrentar crise de liquidez

A recém-empossada controladora da Braskem, a IG4 Capital, iniciou uma ofensiva para acelerar as negociações com credores e viabilizar um pedido de recuperação extrajudicial nas próximas semanas. A estratégia busca garantir proteção contra cobranças enquanto a companhia estrutura uma ampla renegociação de sua dívida, estimada em aproximadamente US$ 9,4 bilhões, equivalente a cerca de R$ 47 bilhões.

O movimento ocorre poucos dias após a conclusão da transferência do controle da petroquímica da Novonor para o fundo Shine, administrado pela IG4. Com a operação formalizada, a gestora passou a conduzir diretamente as tratativas com bancos, investidores e detentores de títulos de dívida emitidos pela companhia. A expectativa é reunir apoio suficiente para protocolar o pedido ainda neste mês, antes dos vencimentos de juros previstos para julho e agosto, que somam cerca de US$ 177 milhões.

A recuperação extrajudicial tem sido vista pela nova administração como o caminho mais eficiente para reorganizar o passivo da empresa sem recorrer imediatamente a uma recuperação judicial tradicional. Nesse modelo, a companhia negocia previamente com seus credores e, após obter adesão mínima exigida pela legislação, leva o acordo à homologação da Justiça. O mecanismo tem ganhado espaço entre grandes empresas brasileiras por apresentar menor custo, menor desgaste operacional e tramitação mais rápida.

Segundo fontes próximas às negociações, a proposta em elaboração prevê um período prolongado de carência tanto para o pagamento de juros quanto para a amortização do principal da dívida. A ideia é criar uma janela que permita à Braskem recuperar sua capacidade operacional, fortalecer a geração de caixa e implementar medidas estruturais voltadas à melhora das receitas, das margens e da rentabilidade.

A aposta da IG4 está alinhada ao histórico da gestora, especializada em empresas que atravessam dificuldades financeiras ou operacionais. Um dos principais exemplos citados pelo mercado é a recuperação da Corredor Logística e Infraestrutura (CLI), processo que durou cinco anos e culminou recentemente na venda da companhia ao Abu Dhabi Ports Group por cerca de R$ 4 bilhões. Outro caso foi o da Iguá Saneamento, cuja reestruturação se estendeu por aproximadamente sete anos até a consolidação da companhia no setor.

A situação financeira da Braskem, porém, exige respostas rápidas. Nos últimos meses, a petroquímica passou a enfrentar restrições cada vez mais severas de liquidez, cenário que começou a afetar inclusive decisões operacionais do dia a dia. Durante a divulgação dos resultados do primeiro trimestre, executivos da companhia reconheceram que a administração tem monitorado constantemente o caixa para definir estratégias de compra de matérias-primas e gestão dos impactos provocados pela volatilidade dos preços petroquímicos em meio às tensões no Oriente Médio.

Além disso, a empresa tem buscado renegociar prazos de antecipação de recebíveis e outras operações financeiras para preservar recursos. O objetivo é ampliar o fôlego financeiro enquanto a reestruturação é construída.

Outro desafio relevante está fora do Brasil. A subsidiária Braskem Idesa, no México, também atravessa dificuldades financeiras e trabalha na preparação de um pedido de recuperação judicial sob as regras do Chapter 11 dos Estados Unidos. As negociações com credores da operação mexicana avançaram nos últimos meses, mas enfrentaram divergências sobre o volume de recursos necessários para recapitalizar o negócio.

No centro das discussões está o empresário mexicano Carlos Slim. Por meio do Grupo Idesa, ele possui participação de 25% na Braskem Idesa e também concentra cerca de 60% dos títulos de dívida emitidos pela subsidiária. Nos últimos meses, Slim disponibilizou uma linha de crédito com limite de US$ 85 milhões, dos quais aproximadamente US$ 34 milhões já foram utilizados pela companhia.

Segundo fontes do mercado, divergências surgiram porque parte dos credores defendia uma injeção de aproximadamente US$ 250 milhões na operação mexicana por meio de um financiamento do tipo debtor in possession (DIP), enquanto Slim defendia um aporte próximo de US$ 500 milhões. Uma capitalização dessa magnitude, porém, poderia alterar significativamente a estrutura societária da empresa, reduzindo a participação da Braskem no controle da subsidiária — hipótese que enfrentou resistência da Petrobras.

A estatal brasileira, que agora divide o controle da Braskem com a IG4, teve participação ativa nas negociações envolvendo a operação mexicana. A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, acompanhou diretamente parte das discussões, segundo relatos de pessoas próximas ao processo.

Enquanto busca reorganizar sua estrutura financeira, a Braskem também encerra um longo capítulo de incertezas societárias. A venda da participação da Novonor era discutida há anos e envolveu diversas tentativas frustradas. Entre elas estiveram negociações com a petroquímica holandesa LyondellBasell, tentativas de venda em bolsa e, mais recentemente, conversas com a petroleira estatal de Abu Dhabi, Adnoc, que acabaram não avançando.

A solução final veio por meio da estrutura montada pela IG4. Em 2025, uma dívida de aproximadamente R$ 21 bilhões vinculada às ações da Novonor foi transferida para veículos administrados pela gestora. Agora, com a conclusão da operação, o fundo Shine passou a exercer o controle compartilhado da Braskem ao lado da Petrobras.

A expectativa do mercado é que os próximos dias sejam decisivos para definir o futuro da companhia. Caso consiga reunir apoio suficiente dos credores, a Braskem poderá iniciar uma das maiores recuperações extrajudiciais da história empresarial brasileira, atrás apenas da operação conduzida recentemente pela Raízen, que envolve cerca de R$ 65 bilhões em dívidas.

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