A valorização de quase 18% do Tesouro IPCA+ 2050 em poucos dias colocou os títulos públicos entre os investimentos mais beneficiados pela reação do mercado financeiro ao primeiro turno das eleições presidenciais de 2026. O movimento, identificado em levantamento da Economatica, ocorreu em meio à queda das taxas de juros futuros e também favoreceu os títulos prefixados, que acumularam ganhos próximos de 7%. Na Bolsa, a alta superou 7%, enquanto o dólar registrou forte desvalorização.
A mudança nas expectativas dos investidores foi impulsionada pelo resultado eleitoral, que colocou Flávio Bolsonaro (PL) à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 47,03% e 45,16% dos votos, respectivamente. Parte do mercado passou a considerar a possibilidade de maior disciplina fiscal a partir de 2027 em um eventual governo do senador, embora as propostas para o equilíbrio das contas públicas tenham recebido pouca atenção durante a campanha.
Segundo relatório da Monte Bravo, somente na segunda-feira (5), os juros futuros de longo prazo recuaram aproximadamente 0,9 ponto percentual. A instituição estima que, caso Flávio Bolsonaro vença o segundo turno, a redução acumulada das taxas poderá alcançar 1,45 ponto percentual em relação aos níveis anteriores à eleição, o que representaria espaço adicional de 0,55 ponto.
“A leitura do mercado é de mais disciplina fiscal, juro real menor e real mais forte. Isso abre espaço para a Selic cair mais rápido em 2027. Para o efeito se manter, o programa econômico precisa confirmar essa leitura, com metas fiscais críveis e reformas”, avaliou a Monte Bravo.
A queda dos juros atingiu diretamente as NTN-Bs, títulos públicos que oferecem remuneração vinculada à inflação, acrescida de uma taxa real. A NTN-B 2029 passou de IPCA mais 7,46% para 6,96%, enquanto a NTN-B 2035 recuou de 7,65% para 7,04%. No vencimento de 2050, a taxa diminuiu de 7,27% para 6,76%.
Essa redução explica a valorização dos papéis já negociados. Pela marcação a mercado, os preços dos títulos prefixados e indexados à inflação se movimentam em sentido contrário às taxas exigidas pelos investidores. Quando os juros caem, títulos adquiridos anteriormente com remunerações mais elevadas passam a valer mais no mercado secundário. O efeito costuma ser mais intenso nos vencimentos longos, que apresentam maior sensibilidade às oscilações das taxas.
Para quem pretende manter os investimentos até o vencimento, as oscilações intermediárias não alteram a remuneração contratada, desde que o título seja mantido nas condições previstas. Já os investidores que buscam ganhos com a marcação a mercado podem aproveitar a valorização para vender antecipadamente, embora essa decisão envolva custos e o risco de encontrar taxas menos atrativas para reinvestir.
Maressa Campos, especialista em investimentos e MBA em Finanças pela B7 Business School, ressalta que a estratégia deve considerar a finalidade da aplicação. Segundo ela, parte do ganho obtido na venda antecipada corresponde à antecipação de um rendimento que seria recebido ao longo dos anos. Por isso, investidores que adquiriram títulos para aposentadoria ou outros objetivos com prazo definido podem encontrar vantagens em preservar as posições.
Para quem investiu especificamente com a intenção de lucrar com a oscilação dos preços, a realização parcial dos ganhos pode ser considerada. A especialista, entretanto, alerta para o custo de vender um papel e recomprar o mesmo ativo logo depois, uma vez que a operação gera tributação e despesas sem necessariamente modificar a exposição do investidor.
No Tesouro Direto, o Imposto de Renda sobre os rendimentos segue uma tabela regressiva, com alíquotas entre 22,5% e 15%, conforme o prazo da aplicação. Assim, o resgate antecipado pode resultar no pagamento de tributos mais elevados e na substituição de um título contratado a taxas superiores por outro com remuneração inferior.
O planejador financeiro Jeff Patzlaff também recomenda avaliar o retorno de longo prazo antes de realizar lucros. “Vender um título excelente para comprar um título mediano destrói o poder dos juros compostos a longo prazo”, afirmou. Segundo ele, a venda deve estar associada a uma necessidade concreta de utilização dos recursos ou ao rebalanceamento da carteira, caso determinado investimento tenha passado a representar uma parcela excessiva do patrimônio.
Além da realização de ganhos, a antecipação de resgates pode ser utilizada para reduzir o risco de reinvestimento, especialmente em títulos próximos do vencimento. Esse risco ocorre quando o investidor recebe o dinheiro aplicado e não encontra no mercado novas oportunidades com taxas equivalentes às contratadas anteriormente.
Em relatório publicado na sexta-feira (2), antes do primeiro turno, a XP analisou essa possibilidade para a NTN-B 2027, com vencimento em maio do próximo ano. Como faltavam aproximadamente oito meses para o pagamento, a corretora avaliou que a venda antecipada poderia permitir a realocação dos recursos em títulos mais longos, aproveitando taxas ainda consideradas elevadas em termos históricos.
Os cálculos da XP indicaram que o resgate antecipado da NTN-B 2027 poderia representar um deságio de até 0,79% ou um ágio de até 1,33%, dependendo da taxa originalmente contratada. Na avaliação da instituição, mesmo uma pequena perda na venda poderia ser compensada pela contratação de uma remuneração maior em uma nova aplicação, reduzindo a exposição à incerteza sobre as taxas disponíveis em maio de 2027.
A recomendação foi formulada antes da valorização provocada pelo resultado eleitoral, com base na expectativa de continuidade do ciclo de redução dos juros. Na sexta-feira anterior à votação, as NTN-Bs com vencimentos entre 2032 e 2050 ofereciam taxas reais entre 7,08% e 7,66%. No fechamento da segunda-feira (5), o intervalo havia recuado para 6,59% a 7,00%. Na terça-feira (6), já não havia títulos disponíveis no Tesouro Direto com remuneração de IPCA mais 7%.
A diferença ilustra os efeitos da escolha do momento de reinvestimento. Quem antecipou a troca antes das eleições poderia ter recebido um valor menor pela venda do título original, mas conseguiu acessar taxas superiores nos papéis de prazo mais longo. Quem aguardou a valorização posterior passou a contar com preços de venda mais elevados, porém encontrou condições menos favoráveis para novas aplicações.
Apesar dos ganhos registrados, a continuidade da valorização depende do comportamento dos juros e da confirmação das expectativas fiscais incorporadas aos preços. Uma eventual reversão das taxas poderá provocar perdas na marcação a mercado, sobretudo nos títulos de vencimento mais distante. Por isso, a decisão de vender ou manter posições exige considerar a remuneração contratada, o horizonte do investimento, a tributação e as alternativas disponíveis para os recursos.










