A expectativa do mercado era de que a ata do Copom trouxesse clareza após um comunicado que gerou mais dúvidas do que respostas. O resultado foi, em grande medida, uma frustração — e especialistas avaliam que o documento não apenas manteve o tom hawkish como aprofundou a percepção de que o ciclo de cortes da Selic pode estar próximo do fim.
Para Matheus Pizzani, economista do PicPay, a ata traz uma mensagem essencialmente conservadora, com praticamente todas as variáveis consideradas pelo Copom em seu processo de tomada de decisão apresentando deterioração no intervalo entre as reuniões. Os destaques ficaram por conta de um cenário externo significativamente mais volátil em função do conflito no Oriente Médio, da forte reprecificação de ativos e das perspectivas para a política monetária dos Estados Unidos daí derivadas, da desancoragem adicional das expectativas de inflação e do desequilíbrio observado entre as políticas fiscal e monetária. Neste último ponto, Pizzani chama atenção para uma menção mais incisiva do que o habitual: o Copom utilizou a expressão “firme convicção” ao atribuir suas preocupações à relação entre política fiscal e monetária — sinalização que, para o economista, pode refletir o receio de que políticas fiscais e parafiscais comprometam a trajetória do núcleo da inflação via aumento da demanda por bens industriais.
O economista do PicPay aponta ainda um ponto de estranheza na construção da ata: após elencar diversos fatores que indicariam a manutenção da Selic como movimento natural, o Copom relata ter optado por seguir exercícios alternativos cujos dados não foram informados — e que sinalizaram o corte como melhor opção. Para Pizzani, os parágrafos em questão levam a crer que o BC preferiu seguir com o ciclo de calibragem neste momento, em uma conjuntura complexa, a postergar os cortes para um momento em que poderia se deparar com uma combinação ainda mais desafiadora: desaceleração da atividade, materialização dos riscos de alta para a inflação — especialmente os relacionados ao El Niño — e uma trajetória definitivamente mais instável do nível de preços. Na sua avaliação, o principal entrave junto ao mercado não é a decisão em si, mas a maneira como ela foi construída e transmitida.
“Em momentos de elevada incerteza, é imperativo que decisões de um Banco Central sejam tomadas e transmitidas com a maior clareza e transparência possível”, afirma. Pizzani avalia que a ata deve continuar reverberando negativamente no preço dos ativos até, pelo menos, a próxima reunião do Copom — e, embora não deva ser encarada como elemento de erosão da credibilidade da política monetária neste primeiro momento, coloca pressão adicional considerável sobre a próxima reunião e a maneira pela qual o comitê explicará seu cenário e decisão.
Bruna Centeno, economista, sócia e advisor da Blue3 Investimentos, converge para a mesma leitura. Ela destaca que a ata trouxe, de forma mais explícita, a visão do Banco Central que o mercado precisava para começar a trabalhar com um cenário de política monetária mais contracionista. O ponto que considera mais relevante é o reconhecimento explícito de assimetria altista no balanço de riscos para a inflação, acompanhado da constatação de desancoragem adicional das expectativas — combinação que, na sua leitura, exigiria restrição monetária maior e por mais tempo.
“O que exigiria uma restrição monetária maior e por mais tempo. E tudo isso por conta do peso da inflação”, afirma. Centeno também destaca a revisão da projeção de inflação para o fim de 2027, elevada para 3,7%, e o reconhecimento do próprio Banco Central de que o alvo de 3% só deve ser alcançado no primeiro trimestre de 2028 — ou seja, além do horizonte relevante da política monetária.
Para a economista, tudo isso fez com que a precificação do mercado migre para um cenário de taxa de juros em nível mais elevado por mais tempo. “Não necessariamente isso indica aumento nessa taxa de juros, mas a probabilidade de pausa e manutenção no nível atual”, pontua. Centeno conclui que os juros futuros devem capturar esse tom mais pesado, especialmente diante de uma economia doméstica que segue resiliente — o que adiciona trabalho ao Banco Central na tarefa de controlar a inflação pela demanda.









